Crescem discursos misóginos e machistas nas redes sociais
Cada vez mais estudos revelam o crescimento de discursos misóginos e machistas nas redes sociais.
Passaram a ser comuns, entre outros termos, “machosfera” para se referir a fóruns e grupos na internet que defendem a masculinidade tóxica; ou então, “redpills” — homens que afirmam ter acordado para uma suposta realidade em que as mulheres seriam exploradoras e manipuladoras.
Um levantamento atualizado este ano pela Universidade Federal do Rio de Janeiro mostra que 90% dos canais do YouTube identificados com conteúdo misógino em 2024 continuam ativos na plataforma. Mais de 130 perfis seguem disponíveis e publicando vídeos com regularidade.
O psicólogo Alexandre Coimbra alerta que mensagens misóginas repercutem com mais violência nas redes sociais. Não há neutralidade.
“As redes sociais são plataformas, primeiramente, que estão regidas pelas big techs, que estão claramente, nesse momento, assumindo que promovem mais o tipo de masculinidade mais tóxica, mais perversa, mais violenta. A rede social não é um ambiente neutro“.
Para o especialista, a internet é uma espécie de TV onde os programas com maior audiência não são escolhidos pelo público, mas pela repetição. Ele defende um diálogo dentro e fora das redes questionando esse modelo. E exemplifica com uma produção lançada recentemente no streaming.
“O documentário “Por Dentro da Machosfera” pega produtores desse tipo de conteúdo e questiona a utilidade desse conteúdo, o malefício desse conteúdo para os meninos, para os adolescentes, para a formação dos homens e para a construção de uma sociedade que não seja regida pela barbárie“.
O orientador familiar Peu Fonseca alerta para o conteúdo oferecido a crianças e adolescentes pelas redes sociais.
“O mundo entra por debaixo da porta dos nossos adolescentes, à noite, quando a gente não está vendo, na tela do celular. O mundo entra. Não tem sistema de proteção, family link, de proteção ao conteúdo que vai acessar. Isso não existe. O mundo entra“.
Felipe Requião, facilitador de grupos de homens, concorda que as redes sociais amplificam conteúdos misóginos, com comunidades de validação. A internet educa mais os meninos que os adultos, diz ele:
” Às vezes, eu dou o celular na mão de um jovem, de um menino, achando que eu estou ocupando o espaço dele, ocupando o tempo dele, fazendo com que ele tenha acesso à tecnologia. Mas, na verdade, eu estou dando uma forma de educação por algo, por alguém que eu não concordo, que eu não conheço e que eu não tenho controle sobre o que está sendo falado. o desafio é ocupar esse espaço com alternativas reais, verdadeiras, de pertencimento masculino saudável“.
Mas a realidade, hoje, é o domínio dos espaços online pelos grupos organizados que espalham desinformação e ódio contra mulheres. A psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello diz nesses casos, o uso da violência é amplificado.
“Amplifica também a possibilidade de um mau uso e o cometimento de novos tipos de violência que não estavam previstos através desses recursos. A gente vai ter o uso da IA, por exemplo, para divulgar fotos montadas de mulheres nuas, então, um novo tipo de nude, mas que nunca existiu“.
A pesquisadora ressalta que o fato de nunca ter existido não impede que afete a honra e as relações sociais das meninas e mulheres.
No entanto, as novas tecnologias, as redes sociais, podem ser também poderosas aliadas no processo de compreensão, desconstrução e crítica das normas sociais e estereótipos impostos a homens e mulheres, o chamado letramento de gênero.
Para Valeska Zanello, é possível direcionar as redes para que conhecimento chegue a mais pessoas.
“As redes sociais e a internet amplificaram o acesso ao conhecimento que anteriormente ficaria focado em certa região, classe social, a universidade, tornando, então, possível, passível de ser acessado por públicos muito diferentes. A gente tem aí uma amplificação de um letramento de gênero, sobretudo entre meninas e mulheres“.
As redes sociais, no seu bom uso, combatem a violência digital com conteúdo educativos, servem para ampliar o alcance das denúncias e de campanhas de mobilização com o uso de hastags. Um exemplo? #ElesPorElas (HeForShe), criado pela ONU Mulheres para engajar homens e meninos na promoção da igualdade de gênero e no empoderamento feminino.
Também podem ser citados o movimento global #Metoo, contra o assédio sexual; e #MexeuComUmaMexeuComTodas.









